Trechos do depoimento dado no Itaú Cultural

 

MARTE, pai da humana realização, consagrado deus da juventude e da energia, que abençoa e protege a humanidade através da medicina e da cura pela paz, exigida em sua presença, para que tenhamos boa vida e boa morte; gera, em sua calorosa relação com AFRODITE, a deusa do amor, HARMONIA, mãe da mortal SEMELLE, que, com sua união com ZEUS, deus da sorte e da hospitalidade, filho de SATURNO, o Tempo, gera DIONYSIOS, o deus do teatro, do vinho sagrado e do transe, que personifica na Terra sua sagrada descendência, representando assim o próprio Ser Humano, que, ao interpretá-lo e interpretar-se publicamente, em suas diversas faces, recebe o nome de ATOR.

 

Acredito no ator como agente transformador. Uma vez que o teatro é arte humana por excelência, feita essencialmente por pessoas que representam a sua própria condição para que outras assistam, ampliando assim a compreensão de si mesmos e da sociedade em que vivem.

 

O PAPEL SOCIAL do ator é o de ampliar as fronteiras da compreensão do ser humano, com a função de espelhar o comportamento e as contradições das pessoas para que elas mesmas adorem e a partir dessa adoração possam aceitar-se e transformar-se. Naturalmente essa transformação deve ser para melhor e para isso o ator deve sempre dar o melhor de si mesmo ao personagem que está representando e o melhor do personagem à platéia. Claro que sem julgamentos morais, porque no teatro a moralidade não existe; cada personagem tem em si a justificativa da sua própria existência. O que importa é o ator ter consciência do que ele quer passar ao público no momento em que está em cena. Isso vai implicar em quais escolhas serão feitas na hora da criação do personagem, o que será ressaltado, qual tipo de conotação e desenho vai se dar a determinada característica ou emoção.

 

No meu trabalho eu procuro dar sempre ênfase ao PRINCÍPIO VITAL do personagem, àquilo que ele tem de mais forte no seu ser, em encontro com a minha própria energia vital. A partir desse encontro fundamental, que parte da percepção da verdade intrínseca do personagem, eu passo a um trabalho de elaboração técnico, que inclui uma partitura emocional, além da física e vocal. Mas sempre ligadas à PULSAÇÃO RÍTMICA INTERNA, porque acredito que é daí que vem a intensidade de um trabalho, o seu poder transformador.

 

O encontro com o autor é sempre muito delicado porquê no texto sempre está presente a energia a ser desencadeada e por isso eu acho muito importante a valorização do texto e a necessidade de autores novos, que sejam capazes de escrever personagens bem construídos, que tenham um princípio GERADOR. Tenho uma ligação especial com a PALAVRA, sempre gostei de textos bem escritos, que dão oportunidade de expansão a quem está fazendo e assistindo. Pra que essa expansão seja possível é necessário uma dedicação ao desenvolvimento da QUALIDADE HUMANA do ator. Para que se possa expressar melhor o ser humano é necessário uma constante atenção interna, quanto mais o ator se desenvolver internamente melhor será o seu trabalho. Isso acho mesmo que deve ser estimulado inclusive nas escolas de teatro, para que possamos ter mais RESPONSABILIDADE com o que criamos e expressamos.

 

O ator deve desenvolver um código de ética próprio dentro de qualquer trabalho para que os ENCONTROS artísticos possam ser mais valorizados e produtivos. Se pensarmos a nossa arte com mais responsabilidade podemos atingir um platéia maior e assumir o nosso papel transformador de pessoas que influenciam muitas outras através da sua exposição pública. Outra coisa que acho fundamental é a valorização do papel da PRODUÇÃO. São necessárias produções que atendam e respeitem as necessidades reais dos atores, dando condições para que o trabalho possa ser desenvolvido da melhor forma possível; produções que sejam efetivamente profissionais e por isso devemos considerar e questionar as relações financeiras e de mercado.

 

Quanto mais CONSCIÊNCIA tivermos da sociedade em que vivemos, da nossa função pública, aumentando a nossa compreensão do mundo e a qualidade de nossos sentidos, melhor será nosso trabalho.Claro que um ator quando entra em cena usa máscaras, não é à toa que o símbolo do Teatro são as máscaras, mas o que se situa antes da máscara é fundamental, inclusive para que o JOGO de tirar e pôr, de brincar com outras faces que não a sua seja interessante – porque o que está atrás é luminoso e belo. E acho que isso é perceptível ao público.

 

É nesse jogo ser-humano-personagem que situo a minha experimentação. Um processo que costumo usar na construção de um personagem, por exemplo, é identificar em que lugares do texto e da partitura de emoções a ação se identifica com os elementos, se uma fala é mais fogo, outra ar, um gesto terra, um ritmo água e assim por diante, na hora de elaborar uma cena. Mas de repente eu subtraio tudo isso e fica eu e a minha VERDADE diante do personagem; aí eu volto a colocar a máscara, e BRINCO com essa relação o tempo todo. Relação que é sempre baseada na ligação com o coração (a cor da ação) do personagem, mas pra isso é necessário estar totalmente presente no instante, com todo meu ser, dando o que tenho de melhor, pra que essa troca seja abundante e bela. A percepção estética também é necessária e é um dos pontos em que entra a interação com a DIREÇÃO, a partir de uma visão comum do ser humano representado e das FORMAS como ele irá apresentar-se. É onde existe a troca de criação – e os melhores trabalhos são aqueles em que se estabelece uma cumplicidade estética-ética-criativa entre atuação e direção.

 

De todas as formas eu posso dizer que no meu trabalho eu busco sempre expressar a BELEZA DA CONDIÇÃO HUMANA, desde a relação com o texto até a manifestação de um personagem publicamente.

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