DA NATUREZA DA PALAVRA

Comecei a desenvolver, através da auto – observação, um método próprio, que se completa a cada trabalho, sobre o uso da voz e da palavra. Essa análise faz parte de um estudo da interpretação, elaborado por mim e pela dramaturga Ana Vitória Vieira Monteiro chamado “O CAMINHO DAS PEDRAS”.

 

Sinto que também pode ser útil a outros atores e atrizes :

 

DA NATUREZA DA PALAVRA

 

O som é nossa relação imediata e primeira com mundo exterior. Desde o berro inicial, quando informamos ao mundo que chegamos, até o sopro final, nos comunicamos com o outro através da palavra ou da emissão de sons. Nossa vibração sonora preenche o vazio, estabelece relações, liga universos. É, ao mesmo tempo, fonte e fruto de nossa criação. Cada ser humano e cada nação emite um som próprio, resultado de sua herança genética, de sua cultura, de seu meio ambiente e de seu tempo.

 

O ator-atriz, agente e co-criador de seu tempo e de sua própria obra, porta-voz de autores, idéias, situações, conflitos, emoções e transformações, tem na palavra sua mais poderosa ferramenta, capaz de dirigir e integrar seu próprio corpo, sua ação e a ação da platéia. Quando evoca, profere, diz uma palavra, e dependendo da maneira como o faz, está pondo em movimento todo o seu corpo, desejos, vontades e contra-vontades; assim como o ambiente, a situação da cena; a platéia, a própria cidade, o país e a natureza onde está localizado.

 

Partindo do princípio de que a natureza de nossos corpos e de nosso meio ambiente é comum a todos, fiz uma relação da emissão vocal com os elementos, de forma a alcançar uma comunicação mais imediata com a platéia.

 

ÁGUA: Uma fala é identificada com a água quando expressa um sentimento e quando provoca uma comunhão das personagens a respeito de um determinado assunto. A água é matéria maleável, que preenche vazios, sinuosa, constante e receptiva, pois recebe e conduz a eletricidade e o ar. O som do sangue, do útero, do paladar.

 

FOGO: A fala fogo é quente, imperiosa, apaixonada, ardente. Sua chama evoca, adere, destrói e constrói. É o som do amor, da paixão, do sexo, do coração.

 

TERRA: É relacionada a algo concreto, determinante, afirmativo ( mesmo quando em forma de interrogação ). Seu som ancora em algo palpável, como um conhecimento anterior, um tato, ou simplesmente um ponto final. A voz dos pés e das mãos.

MADEIRA: A fala madeira é concreta, mas diferente da terra, pois é mais maleável, contínua. Muito delicada e resistente, sua forma é apenas para que a seiva não se esvaia. É a fala da pele e da amizade.

 

AR: Paradoxalmente o mais suave e vital de todos os elementos, o ar já está presente em todos os espaços e em todos os sons. Mas quando uma fala é apropriada para o seu elemento; ela se torna duplamente ágil, precisa, cristalina. É o som do facho de luz, da inteligência, do raciocínio, dos ossos.

 

ÉTER: É relacionada ao nada, ao exalar, sussurrar. Inclui o vazio onde o som é lançado. Quando o ator é simplesmente o instrumento de um som anterior, inumano, imaterial. O som do grito, do gemido, do silêncio.

METAL: Seu som é límpido, cortante, reluzente, definido e frio; usado como ferramenta inesperada no meio do texto.

Leona Cavalli

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